sexta-feira, 27 de maio de 2011

dos venenos mais leves aos mais assustadores calmantes

Logo eu, que sempre fui uma alegoria.
Que quando noite, tropeçando pelos bares gritava uma alegria inconsequente.
Comemorava a liberdade sem você mais ao meu lado. Gritava por um súbito alivio de não ficar mais sempre em suas mãos.
E andava pela rua com um sorriso quase indecente. Que enganava direitinho os mais distraídos.
Eu, que há tanto tempo não conseguia dormir direito. Esperando você me ligar. Aparecer pra mim e dizer que quando você parou de me amar... Lembra? No momento que eu perdi a graça pra você... Que não passou de um mal entendido e que você estaria ali pra mim, de novo.
Logo eu, que sofri tanto com a sua ausência. Estava feliz e deslumbrante. Apagando a sua cicatriz com uma embriaguez feroz. Tentando não notar meu desespero. E com o coração apertadinho.
Chegava em casa e conseguia, vitoriosamente, fechar meus olhos e adormecer. Naquela cama enorme que, depois que você se foi, ficava sempre metade fria e metade quente. E quando madrugada e eu sentia aquela parte gelada no lado que antes era o seu, meu coração esfriava junto e então ficava tudo molhado das lágrimas que quando você estava comigo, nunca permitiu que eu derramasse.
Era a morte me visitando de novo. E o curioso é que não era a minha morte. E sim a sua. Que vamos combinar, facilitaria muito as coisas. Morrendo você eu não precisaria mais me preocupar se você ainda pensava em mim como antes. Morrendo você eu não te esperaria mais e nem os seus telefonemas. Eu não ficaria me perguntando se você já tinha outro alguém. Não veria mais seus rostos em todos os outros.
Morrendo você, amor, eu é que descansaria em paz.

pode entrar mesmo, mas entra devagar...

Acho que o que estou sentindo agora é medo.
Não que eu nunca tenha sentido.
Só que dessa vez ele veio quase de máscara, tirando uma comigo “Vamos ver se ela me reconhece...”. Pois bem, eu digo que isso é medo.
Certo que toda mudança segue acompanhado de uma habitual melancolia. Porque qualquer mudança, mesmo que pequena, tem um quê de tristeza, vocês vão concordar comigo. Acontece que deixamos de ser o que nós éramos pra ser uma outra coisa. Abandonamos nós mesmos. Mudar dá medo. A gente fica ansioso, entusiasmado, feliz da vida. Mas dá um medinho “E se eu não segurar as pontas...”. Dá medo.
Mudar me parece irresistível, confesso. Vou mudar. Vou me mudar de cidade, de casa, de escola, de vida.
Eu tenho andado doidinha, doidinha... Conversando com as paredes. Despedindo-me do meu quadro preferido e andando pelos corredores como quem vê unicórnios pelo teto.
Não sei. Mas deve ser medo. Porque louca eu não estou. Não ainda.
Não posso deixar de falar que meu medo não é de nada real. Sou do tipo que pula de pára-quedas, que anda sozinha em um beco escuro tarde da noite, sobe em um skate e corre que nem criança. Adrenalina não é problema pra mim e eu não tenho medo de arriscar. De tentar. Prefiro acordar arrependida a dormir na vontade, olha eu aqui já falando bobagem e soltando cantadas de micaretas. Não dêem ouvidos ao que eu falo. Mas é certo, até as cantadas mais chulas tem certa poesia.
Mas voltando, o meu medo é outro. Tenho medo de fantasma, de dragão e de duende [podem até falar que eles são uns amores, mas eu continuo achando que são criaturinhas macabras que vivem escondendo meu controle remoto, meus prendedores de cabelo e minhas canetas].
Isso que é medo pra mim. Medo do que não existe. Medo do que eu tenho certeza que não vai fazer nada de mal comigo.
Medo de mudança pra mim é novo. E sabe de uma coisa? Eu estou animadíssima.

E morrendo de medo.

terça-feira, 24 de maio de 2011

importante obs.

Harry,

Você sumiu! Estou lhe escrevendo realmente implorando para que pare de se esconder e viva, homem! Não lhe reconheço mais...
Nunca mais deu noticias suas.
Não sei mais de você...
Sei que depois que aquela umazinha, Louise, partiu seu coração, as coisas mudaram.

Harry, nós sempre fomos amigos.
Era eu e você contra o mundo, lembra? E aí você se foi... e até lhe entendo.
Só peço que não desapareça para sempre. Pois seu irmão aqui sente saudades.
Muita coisa mudou.
E ela. Continua aqui.
E todas as noites você pode encontrá-la nos melhores bares da cidade.
Sempre vestindo roupas que provavelmente te enlouqueceriam.
Como sempre te enlouqueceram.
Sempre com um salto que dá um algo mais naquele corpo escultural e desenhado por anjos...Um algo mais...como se fosse necessário! Ela desfila com as amigas como se aqui fosse o seu palco. Nós, a plateia.
E você. O ingresso do espetáculo. Aquele que faz com que tudo que venha depois seja possível. Mas que é rasgado em mil pedaços logo em seguida.
Você. Você que colocou ela aqui.
Ela era só irresistível antes de você.
Hoje, tem uma multidão impressionada por ela ter feito o que fez. Com você.
Ter conquistado o amor de Harry Bridge, o cara que não se apaixonava por ninguém.
Por ela ter te feito sofrer. E por ultimo, ter te feito ir embora.
Não sei como ela fez isso.
Mas sei que ela era a única que poderia ter feito.
Sei também que você precisa voltar.
Não para dar o troco.
Não para tira-la do pedestal que você a colocou.
Não acho que isso seria possivel, amigo...
Peço que volte para vida. Que pare de se esconder e encare essas pernas esculpidas, esse rosto angelical, esses olhos diabolicos, tudo com micro roupas e muita maquiagem...Volte, Harry...
Acho que você deveria ver o que você fez com ela...Em que a tranformou!
E chegue devagar... Como quem pisa em terreno alheio...Cauteloso, e repare o que é aquela mulher e a sua 'gangue'...
E preste atenção: Crie uma cena, comece uma confusão, arranje um problema, uma encrenca, não adianta (e não importa), Harry, elas vão continuar se divertindo...

Um abraço e volte logo!

John.

Pra se você quiser que eu fique

Caso você queira posso passar seu terno, aquele que você não usa por estar amarrotado.
Costuro as suas meias para o longo inverno...Use capa de chuva, não quero ter você molhado.
Se de noite fizer aquele tão esperado frio poderei cobrir-lhe com o meu corpo inteiro. E verás como a minha pele de algodão macio,
agora quente, será fresca quando for janeiro.
Nos meses de outono eu varro sua varanda, para deitarmos debaixo de todos os planetas.
O meu cheiro te acolherá com toques de lavanda.Em mim há outras mulheres e algumas ninfetas
Depois plantarei para ti margaridas da primavera, e aí no meu corpo somente você e leves vestidos, para serem tirados pelo seu total desejo de quimera.
Os meus desejos, irei ver nos seus olhos refletidos.
Mas quando for a hora de me calar e ir embora sei que, sofrendo, deixarei você longe de mim.
Não me envergonharia de pedir ao seu amor esmola, mas não quero que o meu verão resseque o seu jardim.

(Nem vou deixar – mesmo querendo – nenhuma fotografia.
Só o frio, os planetas, as ninfetas e toda minha poesia.)

não vá por aqui...

Em qualquer rua escura. Em qualquer bar mal assombrado por corações partidos.
Em mãos.
Fred.
Deixa eu tentar te explicar.

É sexta-feira. E já esta no horário da partida do sol.
E você sabe bem como fico em dias assim... Nessas horas.
Já começo a pensar em tudo que poderá acontecer. Tudo dando certo ou não. Melhor que não dê. Que geralmente é mais divertido... Começo então a pensar que talvez não seja por acaso que você não esteja perto de mim. Começo a pensar que pode ser melhor. Começo até a gostar...
Dias que eu começo a esquecer um pouco de você.
Mesmo sendo você tudo pra mim.
Hoje é o dia que meu cabelo fica com um brilho diferente, as abelhas e as flores vem me cortejar e perguntar se por acaso eu quero um pouco mais de açúcar.
Um pouco mais de chá.
Pra lhes contar o meu segredo...
Não tenho segredo algum, mas finjo que tenho pra não acabar com o mistério...
E eu sinto um não sei o que por tudo que é belo, feio, engraçado e curiosamente me encanta.
E foi hoje. Em um dia desses.
Quando eu estava pensando comigo mesma.
Se o prazer de fazer um colar de margaridas é mais forte do que o esforço de ter de levantar e colher as margaridas.
Quando subitamente você entrou aqui.
Aqui dentro, sabe? Dentro de mim.
E aí então, essa imagem sua tão real, resolveu me olhar.
Não falou nada.
Só ficou me olhando.
E ai eu resolvi te escrever outra carta.
Porque embora eu ainda não tenha certeza disso, Amor, eu te amo.
E depois da carta que lhe fiz. Depois que você respondeu. Eu tenho me sentido bem.
Eu tenho que confessar.
Não abri a sua carta. Não sei o que escreveu pra mim, mas sei que foi bonito. Confio em você.
E não acredite nos que dizem que estou ficando maluca.
Por favor, algumas pessoas mentem e outras enlouquecem.
Algumas pessoas só se afastam.
Fred. Não me deixe nunca sem respostas... Por favor.
Não me deixe nunca ser passada em branco, tá?
Não precisa prometer.
Mas não me deixa em branco nem me esquece nem me apaga.
E nem some, porque eu nunca te acho e nunca me acho sem você.

Tenho que ir agora, Fred.
As borboletas e os cogumelos acabaram de chegar.
Vou inventar uma mentira qualquer pra não ter que contar o meu segredo.
Aquele lembra.
Invento uma mentira qualquer. Você não demora. E ai a gente faz ser verdade... Porque logo logo as formigas vão bater na minha porta e você sabe bem, Amor, o quanto elas são exigentes...



Sarah.

p.s.: Se agasalhe. Se alimente. E não enlouqueça sem mim...