quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Soneto do infinitivo

Primeiro foi só uma estrofe.
Eu custei pra acreditar que passaria daquilo. Imaginei que fosse terminar como mais uma daquelas frases deixadas por aí. Que a beleza dela se daria pelo que poderia ter sido. Mas com a gente foi.
Primeiro foi só uma estrofe. E a partir daí foi tudo poesia...
Começamos com calma nossa primeiro verso e ele se tornou pequeno demais pra tudo que queríamos viver e não cabia.
Tudo rimava com nós dois e eu não cansava de esperar por você.
Falava as coisas erradas, inquieta, esperando que viesse me corrigir.
E você vinha, impaciente, dizendo que eu era uma boba e me calava com seu beijo apressado. Doido pra me ver de novo.
Nesse segundo verso eu me esforcei muito pra fazer tudo direitinho. Acho até que fiz. Ele é que já não me amava mais com a mesma insensatez.
Depois acabou. E o soneto que começou comigo, com ele e como o amor de ambos terminou. Terminou comigo, com ele e com tudo que eu fiz, e não adiantou, pra te fazer feliz.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Ser Brotinho

Paulo Mendes Campos


Ser brotinho não é viver em um píncaro azulado: é muito mais! Ser brotinho é sorrir bastante dos homens e rir interminavelmente das mulheres, rir como se o ridículo, visível ou invisível, provocasse uma tosse de riso irresistível.

Ser brotinho é não usar pintura alguma, às vezes, e ficar de cara lambida, os cabelos desarrumados como se ventasse forte, o corpo todo apagado dentro de um vestido tão de propósito sem graça, mas lançando fogo pelos olhos. Ser brotinho é lançar fogo pelos olhos.

É viver a tarde inteira, em uma atitude esquemática, a contemplar o teto, só para poder contar depois que ficou a tarde inteira olhando para cima, sem pensar em nada. É passar um dia todo descalça no apartamento da amiga comendo comida de lata e cortar o dedo. Ser brotinho é ainda possuir vitrola própria e perambular pelas ruas do bairro com um ar sonso-vagaroso, abraçada a uma porção de elepês coloridos. É dizer a palavra feia precisamente no instante em que essa palavra se faz imprescindível e tão inteligente e natural. É também falar legal e bárbaro com um timbre tão por cima das vãs agitações humanas, uma inflexão tão certa de que tudo neste mundo passa depressa e não tem a menor importância.

Ser brotinho é poder usar óculos como se fosse enfeite, como um adjetivo para o rosto e para o espírito. É esvaziar o sentido das coisas que transbordam de sentido, mas é também dar sentido de repente ao vácuo absoluto. É aguardar com paciência e frieza o momento exato de vingar-se da má amiga. É ter a bolsa cheia de pedacinhos de papel, recados que os anacolutos tornam misteriosos, anotações criptográficas sobre o tributo da natureza feminina, uma cédula de dois cruzeiros com uma sentença hermética escrita a batom, toda uma biografia esparsa que pode ser atirada de súbito ao vento que passa. Ser brotinho é a inclinação do momento.

É telefonar muito, estendida no chão. É querer ser rapaz de vez em quando só para vaguear sozinha de madrugada pelas ruas da cidade. Achar muito bonito um homem muito feio; achar tão simpática uma senhora tão antipática. É fumar quase um maço de cigarros na sacada do apartamento, pensando coisas brancas, pretas, vermelhas, amarelas.

Ser brotinho é comparar o amigo do pai a um pincel de barba, e a gente vai ver está certo: o amigo do pai parece um pincel de barba. É sentir uma vontade doida de tomar banho de mar de noite e sem roupa, completamente. É ficar eufórica à vista de uma cascata. Falar inglês sem saber verbos irregulares. É ter comprado na feira um vestidinho gozado e bacanérrimo.

É ainda ser brotinho chegar em casa ensopada de chuva, úmida camélia, e dizer para a mãe que veio andando devagar para molhar-se mais. É ter saído um dia com uma rosa vermelha na mão, e todo mundo pensou com piedade que ela era uma louca varrida. É ir sempre ao cinema mas com um jeito de quem não espera mais nada desta vida. É ter uma vez bebido dois gins, quatro uísques, cinco taças de champanha e uma de cinzano sem sentir nada, mas ter outra vez bebido só um cálice de vinho do Porto e ter dado um vexame modelo grande. É o dom de falar sobre futebol e política como se o presente fosse passado, e vice-versa.

Ser brotinho é atravessar de ponta a ponta o salão da festa com uma indiferença mortal pelas mulheres presentes e ausentes. Ter estudado ballet e desistido, apesar de tantos telefonemas de Madame Saint-Quentin. Ter trazido para casa um gatinho magro que miava de fome e ter aberto uma lata de salmão para o coitado. Mas o bichinho comeu o salmão e morreu. É ficar pasmada no escuro da varanda sem contar para ninguém a miserável traição. Amanhecer chorando, anoitecer dançando. É manter o ritmo na melodia dissonante. Usar o mais caro perfume de blusa grossa e blue-jeans. Ter horror de gente morta, ladrão dentro de casa, fantasmas e baratas. Ter compaixão de um só mendigo entre todos os outros mendigos da Terra. Permanecer apaixonada a eternidade de um mês por um violinista estrangeiro de quinta ordem. Eventualmente, ser brotinho é como se não fosse, sentindo-se quase a cair do galho, de tão amadurecida em todo o seu ser. É fazer marcação cerrada sobre a presunção incomensurável dos homens. Tomar uma pose, ora de soneto moderno, ora de minueto, sem que se dissipe a unidade essencial. É policiar parentes, amigos, mestres e mestras com um ar songamonga de quem nada vê, nada ouve, nada fala.

Ser brotinho é adorar. Adorar o impossível. Ser brotinho é detestar. Detestar o possível. É acordar ao meio-dia com uma cara horrível, comer somente e lentamente uma fruta meio verde, e ficar de pijama telefonando até a hora do jantar, e não jantar, e ir devorar um sanduíche americano na esquina, tão estranha é a vida sobre a Terra.


Texto extraído do livro “O Cego de Ipanema”, Editora do Autor – Rio de Janeiro, 1960, pág. 15.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Aguarde.
Aguarde para que meus sonhos venham a tona, se embaralhem, virem realidade.
Daí quem sabe, se explodam em mim, causando uma confusa dança de melancolia e felicidade.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Só pro meu prazer

Não fala nada
Deixa tudo assim por mim
Eu não me importo
Se nós não somos bem assim
É tudo real as minhas mentiras
E assim não faz mal
E assim não me faz mal não
Noite e dia se completam
O nosso amor e ódio eterno
Eu te imagino, eu te conserto
Eu faço a cena que eu quiser
Eu tiro a roupa pra você
Minha maior ficção de amor
Eu te recriei, só pro meu prazer
Só pro meu prazer
Não vem agora com essas insinuações
Dos seus defeitos ou de algum medo normal
Será que você, não é nada que eu penso
Também se não for
Não me faz mal
Não me faz mal não...

Últimas palavras

O meu amor é bem maior do que mágoa
O meu amor é bem maior que o teu perdão
O meu amor resiste as curvas e o vento
O meu amor te quer como recordação

Por isso é que eu não vou te arrancar a força
Não vou acreditar que você não amou
Não vou espalhar que você não presta
Não vou te condenar por que você me mancha
Eu vou silenciar a boca

Mas não vou calar meu coração
Não posso te odiar
Porque você não sabe
Os erros por amor já nascem com perdão

Você não percebeu quem sou
Não compreendeu insegurança é dor
Não caiu a ficha, eu errei por amor
Você não entendeu nada

http://www.vagalume.com.br/patricia-mellodi/ultimas-palavras.html#ixzz1RSe8xBtg

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Do verbo saudade...

Sinto falta do seu beijo de boa noite. E do seu 'eu te amo' delicado. Sinto falta das brigas e de depois dormir ao seu lado.
Sinto falta de ficar com raiva de você e depois morrer por dentro com remorso de tudo que pensei. Sinto falta de coisas que, sinceramente, nem eu sei.
Sinto falta de ter pra vida inteira. Das tardes, dos telefonemas e das brincadeiras.
Sinto falta de não ficar sempre sob a sua proteção. Sinto falta de sorrir pra você e você sorrir pra mim com o coração.
Sinto falta de ver você dormindo. Sinto falta do seu 'não mente pra mim.'. Sinto falta de continuar mentindo.
Sinto falta de não poder te ver todos os dias. Sinto falta dos dias, das noites e (quem diria) até das suas manias.
Sinto falta do seu cinismo e da sua falta de compreensão. Sinto falta de errar, sinto falta de pedir perdão.
Coloquei mil virgulas a procura de um ponto final, fui um desastre nisso, me tornando uma sentimental. É que nessa de saudade, acabei virando o que sempre mais detestei em você. Não muda o fato de que a verdade é que preciso suprir essa falta, como o sol precisa nascer.